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#Carreira#História#2008

2008: Hello World

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O ano era 2008. O mundo estava prestes a mudar, mas a gente ainda não sabia exatamente como. Nos noticiários, a crise financeira global começava a mostrar suas garras, Barack Obama era eleito nos EUA, e a Apple lançava o iPhone 3G e a App Store, plantando a semente da revolução mobile que viveríamos na próxima década.

Mas em São Mateus, no Espírito Santo, o meu universo era outro.

Eu tinha acabado de me casar. A vida de recém-casado trazia aquele misto de euforia e responsabilidade que só quem viveu sabe descrever. Profissionalmente, eu era um recém-formado no curso de Hardware e Redes da Microlins. Minha rotina? Trabalhar no suporte de TI de uma rede de farmácias.

O Mundo Analógico-Digital de 2008

Para quem começou a programar hoje, com Copilot e ChatGPT, pode ser difícil imaginar como era a nossa vida digital.

Grande parte do meu dia na farmácia, entre um chamado de impressora travada e outro, era gasta navegando no Clube do Hardware, absorvendo tudo o que podia sobre placas-mãe e processadores.

A Centelha: Betafar e o Desafio Hacker

A virada de chave aconteceu de forma sutil. Eu era o "power user" do nosso ERP, um sistema chamado Betafar, construído em Visual Basic. Aquele software não era apenas uma ferramenta de trabalho; era um mistério que eu queria desvendar.

Tive a oportunidade de interagir com o time de desenvolvimento e suporte da empresa do ERP. Ver aqueles caras traduzindo problemas de negócio em linhas de código me fascinou. Eu não queria mais apenas consertar o computador onde o software rodava; eu queria criar o software.

Minha curiosidade me levou ao site Desafio Hacker (infelizmente já extinto). Era um playground para mentes curiosas, com níveis que iam desde truques básicos de HTML até lógica de engenharia reversa. Cada nível superado era uma injeção de dopamina.

Faculdade: O Medo e o Êxtase

Decidi dar o salto. Ingressei na antiga UNISAM (hoje UNIVIX) em São Mateus.

Confesso: eu estava apavorado.

Ao chegar lá, encontrei alunos e professores que pareciam falar outra língua. Me senti intimidado, achando que estava atrasado, que aquilo talvez fosse "areia demais para o meu caminhãozinho". A síndrome do impostor bateu forte antes mesmo desse termo ser moda.

Mas então vieram as aulas práticas de laboratório. Ah, o laboratório...

Usávamos uma ferramenta chamada Pascalzim. Eu já tinha "brincado" de Delphi anteriormente (acho que a versão 7 ou 11), mas minha experiência era rasa, baseada em arrastar botões e caixas de texto. Era "programação visual", sem entender o que acontecia por baixo do capô.

No Pascalzim, a tela era preta. O cursor piscava esperando um comando.

Quando escrevi minhas primeiras linhas e vi o resultado aparecer no terminal, senti uma das melhores sensações da minha vida. Não era um botão bonito numa janela do Windows; era pura lógica se manifestando. Eu tinha dado uma ordem à máquina, e ela obedeceu.

Aquele Hello World não foi apenas um texto na tela. Foi um "Cheguei".

C#, Algoritmos e a "Esquizofrenia" Lógica

No segundo período, fomos apresentados ao C#. A sintaxe, a orientação a objetos, o poder da plataforma .NET... aquilo tudo clareou minha mente. Meu objetivo se tornou ambicioso: eu queria criar meu próprio ERP.

Hoje eu rio, mas na época, conceitos simples eram montanhas intransponíveis.

Mas eu tinha algo que compensava a falta de talento natural: teimosia.

Eu passava horas e horas à frente da máquina. Madrugadas estudando, aplicando, errando, e errando de novo até a exaustão. Tudo isso enquanto tentava ser um bom marido e manter meu emprego.

Tive dois anjos da guarda nessa jornada:

  1. Patrik Segantini: Um colega de classe que já era experiente e me salvou inúmeras vezes nas monitorias.
  2. Macoratti.net: Se você é dev .NET e nunca copiou um código do Macoratti, você não é dev .NET de verdade. O site dele era a nossa Stack Overflow antes da Stack Overflow ser o que é.

O Que Mudou (e O Que se Perdeu)

Olhando para trás, percorri muitas milhas. Mudei de cidade, troquei de curso, vivi outras profissões, mas o código sempre me puxou de volta.

Em 2008, a informação era escassa.

Estudávamos por revistas da Digeratti compradas em bancas de jornal. Livros eram caros e raros. A informação estava concentrada na mão de poucos "gurus". O desenvolvimento Web ainda era um bebê, e o termo "Cloud Computing" soava como ficção científica. Desenvolvíamos para Desktop, ponto.

Vivi revoluções que hoje parecem banais:

Mas sinto que, no meio dessa abundância de recursos que temos hoje, algo se perdeu.

Vejo uma nova geração de desenvolvedores que, apesar de terem todo o conhecimento do mundo a um clique de distância, muitas vezes carecem da base. Sabem usar um framework, mas travam em algoritmos básicos. Sabem fazer uma API, mas não entendem como a memória funciona.

E, mais preocupante ainda, vejo pouco brilho nos olhos.

Onde estão os projetos pessoais "inúteis" criados apenas pelo prazer de aprender? Onde está a curiosidade de escovar bits, de entender o "porquê" e não apenas o "como"? Parece que a programação virou apenas "carreira", e perdeu um pouco da sua "arte".

Um Novo Começo

Eu mesmo me questiono: do que se trata esse novo jeito de desenvolver software?

Começo este blog como uma tentativa de resgatar aquele sentimento de 2008. Quero buscar um novo propósito. Como posso impactar essa nova geração? Como contribuir para o mundo que vamos construir nessa nova era de Inteligência Artificial?

Vou escrever aqui diariamente. Sobre os desafios técnicos, sim, mas também sobre as batalhas internas, as dúvidas e as vitórias.

Porque, no fim das contas, a tecnologia muda a cada 6 meses, mas a paixão por criar soluções... essa deve ser, assim como um bom código legado, imutável.

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